sexta-feira, 18 de junho de 2010

A espera sem fim por um milagre

Em um quarto com uma porta, meio velha, quebrada nas suas laterais, ou será que ela está corroída pelo tempo, bem provável que seja isso mesmo. Uma janela velha, enferrujada, com um vidro quebrado, janela sem pintura, com uma única tranca. Uma cama de solteiro, um colchão velho, surrado, antigo sem capa ou mesmo um forro, travesseiro era um pano enrolado que somente apoiava a cabeça, onde fundamentava os pensamentos mais estranhos, sem nexo ou mesmo sentido. Sabe aqueles momentos que você tem certeza de que não está pensando em nada, mas sua cabeça pesa, em relâmpagos, raios devastadores de sua mente, não quer pensar, mas seu cérebro te obriga a esse momento desalinhado, momento que não tem fundamento algum, não quer pensar em nada, mas está. Um quarto sujo, empoeirado, teias de aranhas no teto, um ventilador com seus fios seguindo até o apagador, rodando lentamente como se estivesse movimentado pelo vento que passa pela fresta da janela. Que insegurança é essa, que medo é este, que enjoou e vertigens, fecho os olhos e meus pensamentos parecem sonhos, pensamentos que são sonhos. Mentiras que meu cérebro me conta, ou vontade que tenho reprimidas. Olho pra mim mesmo, parece que não estou respirando, não tenho porque respirar mesmo, pra que isso, pra que tantos pensamentos e sonhos?

Deitado sobre uma das mãos, olhando para o teto, a outra mão parece formigar, meus pés não querem ficar quietos, batem uns aos outros devagar, mas ansiosos, meus olhos fechados, sorrio de vez enquando, alguma coisa parece estar me atormentando, mas ainda não sei o que poderia ser. Solto minha cabeça no travesseiro improvisado e, passo as mãos no cabelo com os olhos ainda fechados, coloca as duas mãos sob a cabeça. E o que será que estou pensando ainda? Nem mesmo eu poderia saber.

Barulho de carros lá fora, não muitos, mas o suficiente pra eu dar conta, que ainda estou vivo, ou será que existe carros em outro lugar a não ser na Terra? Pra onde será que vou, já me fiz essa pergunta várias vezes e, nunca tive a resposta, ninguém me convence sobre, já reclamei o direito de saber tal coisa, o direito de ter o controle de si mesmo, de pode fazer aquilo que tenho vontade, de não ter que dar satisfação pra pessoa alguma, até mesmo pra você, fazer por fazer e nada mais. Não quero prejudicar ninguém, não quero fazer perguntas impossíveis, não quero colocar em cheque ninguém, só quero controlar a mim mesmo. Controles existem, e isso passa por minha cabeça a todo o momento, leis constitucionais, estaduais, municipais, leis do universo, leis da natureza, leis da vida, da sobrevivência, da divindade, de deuses, de povos, de pessoas, de chás, de tudo e, as minhas onde estão, onde poderia sentir que existe a minha lei, a minha história, dignidade, minhas resoluções e explicações para as coisas, onde eu poderia ser eu mesmo, sem ter que obedecer sentir, escutar, ouvir, ver e respirar as coisas alheias quero ter as minhas próprias regras, minha própria vida. Porque eu tenho que trabalhar, não poderia somente viver de sol, ou de terra. Onde está escrito que devemos ter casa, carro ou moto, construir família e ser feliz para todo sempre. Quero ficar sempre aborrecido, infeliz, bobo, retardado, sem responsabilidade, tirar meleca do nariz, coçar a bunda, tirar a cueca do rego, tomar uma pinga, comer gordura, hambúrguer no almoço e feijoada antes de dormir, rir no velório, entrar sem camisa no fórum, andar de cueca pela rua, chorar quando alguém me abraçar, abraçar todas as pessoas e tudo que ver pela frente. Quero só ser eu, ou será que serei mim? Mim ser alguém ou eu sou alguém, que importa, estou falando da minha pessoa não de você ou das suas regras, preconceitos ou armadilhas do sistema.

Querem me ditar regras de bom convívio, mas fazem tudo ao contrário do que eles mesmos me pregam. Dizem para seguir a Deus, mas ninguém nunca o viu. Falam pra seguir a constituição, mas os representantes não a seguem, existe uma pra cada um nesse mundo que vivemos. Uma constituição para os que a fazem, uma para quem a segue e outra para quem a faz obedecer. Olho para o teto do quarto, em súbito abrir dos olhos, e vejo uma aranha passeando em sua teia, o que será que passa em sua mente, questionamentos parecidos com os meus ou o mesmo que os outros animais. Não, ela tem seus objetivos que não se faz encontrar em sua totalidade com os mesmo que eu, pobres mortais. Aranha feliz, que segue sua própria regra, quando destrõem seus objetivos, não destrõem seus sonhos, ela os reconstrói de novo e segue em frente, não se preocupa com mais nada, a não ser seus objetivos, não vive de futuro ou de passado, somente de presente. Presente este que se faz muito forte em sua vida. Sem lembranças do passado ou perspectiva do futuro. Aranha forte e segura de si mesma.

Porque tenho que entregar meus objetivos ao desconhecido e pedir ajuda a quem não conheço. Posso ser uma aranha, acreditar em mim mesmo, seguir em frente, não ficar fazendo orações para todo o sempre, pedindo a alguém que não conheço. Porque tenho que ficar pedindo esmola o resto da vida para o meu criador, será que existe? Se fosse meu pai, eles dizem que não posso ficar o resto da vida pedindo para ele as coisas, que devo fazer minha própria família e assim alguém me pedir, mas quando falamos do desconhecido, tema o seu "deus", peça a ele misericórdia, atenção, sabedoria e, não posso obter por mim mesmo. Porque será, que isso acontece, vai saber.

A luz que passava pela janela, um pequeno filete de luz, não existe mais, nesse momento que abri os olhos mais uma vez, a noite chegou como tantas outras noites, como tantos outros dias, tudo se repete mais uma vez, e minha vida repete mais uma vez, e a aranha no mesmo lugar, aumentado a sua teia até que alguém ou alguma coisa a arrebente e venha forçá-la a reconstruir mais uma vez. Ninguém está me forçando a reconstruir ou construir algo, nesse quarto sou dono do meu próprio mundo.

J. P. Rosa "Sandro Rosa"

terça-feira, 15 de junho de 2010

Breve Instante

Tenho em mente ainda, o doce sabor, como se fosse agora a pouco que tivesse acontecido. Em alguns séculos de existência consegui chegar a certo controle, autocontrole na verdade, do meu impulso por sangue, para conviver melhor com a raça humana. Afinal, já fui um deles um dia e, mais do que isso, quis um deles. Era diferente. Porque, em um breve momento, tive tudo e perdi. Eu o via e a vontade crescia de estar perto, de saber por onde tinha ido, o que tinha feito. Vontade de participar de sua vida e, é claro, consegui. E qual de nós não conseguiria? Tudo convida a nós, o cheiro, os olhos, a voz, todavia, ele era diferente, éramos completos. Eu o queria mais do que um capricho, como tantos foram, pelo menos é no que acredito.

Aquela noite tinha um toque de eternidade! Não por mim, mas sua pele quente e macia, a minha pálida refletia a luz da lua e, seu toque quente, sua boca urgente e, tudo parecia perfeito. De repente tinha pressa, pelo seu pescoço, seu tórax tão bem desenhado, que arte melhor do que esta poderia haver? Seu corpo quente, dava para sentir o sangue correndo, subindo, descendo, acompanhando o ritmo cardíaco que agora acelerava... hhuuumm!!! Sua língua quente perfazendo minha boca, meu queixo, meu pescoço... e tudo... aahh... suave... de repente, num rompante, de tamanha pressa, eu precisava urgentemente dele e ele de mim e não conseguia parar até conseguir o que eu queria, no ápice para nós dois, insana, como jamais havia estado, sem controle. Ele me apertava tão firme que se fosse humana não me soltaria daquele abraço, seu calor fez-me ter outro gozo, um prazer inigualável, pois juntaram ali, naquele instante, as duas coisas que eu ansiava; seu sangue correndo por seu pescoço nem sequer se deu conta e eu, tomada por um doce frenesi, só percebi a total insanidade quando o corpo flácido, vazio, caiu para o lado. Se pudesse chorar, choraria. O ódio domou por um breve instante, mas já não havia nada para fazer.

E hoje somente me resta um grande vazio. Nada tem o mesmo sabor do que tive naquele momento. Naquela noite eu pude saborear um momento que foi único e completo, num breve instante.

"CÊSSIE"

quinta-feira, 3 de junho de 2010

O Último Dia

Paulinho Moska

Composição: Paulinho Moska e Billy Brandão

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Ia manter sua agenda
De almoço, hora, apatia
Ou esperar os seus amigos
Na sua sala vazia

Meu amor
O que você faria se só te restasse um dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Corria prum shopping center
Ou para uma academia
Pra se esquecer que não dá tempo
Pro tempo que já se perdia

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia
Se o mundo fosse acabar
Me diz, o que você faria

Andava pelado na chuva
Corria no meio da rua
Entrava de roupa no mar
Trepava sem camisinha

Meu amor
O que você faria?
O que você faria?

Abria a porta do hospício
Trancava a da delegacia
Dinamitava o meu carro
Parava o tráfego e ria

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria

Meu amor
O que você faria se só te restasse esse dia?
Se o mundo fosse acabar
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria
Me diz o que você faria...

http://www.youtube.com/watch?v=FpA7_-ZuQXA&feature=player_embedded#!

A Lua

A lua está tão clara com alvéolos ao seu redor. Uma luz tão clara, iluminando a mata ao redor. Um clarão lindo, devastador no ser. Olhando abaixo se percebe ao longe um pequeno sinal de cidade, com suas luzes bonitas, parece vaga-lumes, mas nada se compara ao reflexo do sol na lua, resplandecendo na face pálida. Sentado em uma pedra na montanha. Pedra grande, enorme ao meu descrever. Mata verde e, abaixo um abismo gigantesco. Respiro o ar que passa ao meu lado, talvez não devesse ter esse sentido, mas alguns podem ter ao menos essa regalia nessa pós vida.

Ao longe se percebe animais noturnos, sons noturnos e até mesmo o silêncio. Parece eterno o silêncio, mas logo em seguida um ventinho frio na face, eterniza momentos vividos ao longo da antiga vida, quando podia-se realmente sentir tais sensações. Dar valor infelizmente ao perdido, ao esquecido, ao passado, ao não vivido e quem sabe ao que não vivi “ainda” – parece impossível, mas quem não se arrepende ou não se arrependeu do que não viveu – sinto saudade de uma época infantilizada, sem responsabilidade, das brincadeiras de roda com cantigas, pega-pega, escorregador, subir em árvores, carrinhos de madeira, nadar, correr na lama, esconde-esconde.

Lembro-me de um episódio antigo, corríamos um amigo e eu para nos esconder, na brincadeira havia 11 crianças (sendo quatro meninos e sete meninos), a uma gruta, não escondíamos muito longe, porque nossos pais não deixavam brincar fora do perímetro da casa, e nossas mães vigiavam sempre, avistavam ou ouviam os gritos de nossas brincadeiras. Correndo em direção a gruta, havia uma pedra grande e uma entrada meio escondida com muito mato, mas dessa vez algo diferente estava há acontece. Sentia uma sensação estranha, mas nada que podia me impedir de entrar e não ser encontrado. Havia morcegos no local, muita centopéia e uma escuridão. Entrando na gruta, sorrateiramente, começamos a tatear o chão para achar um melhor local para nos esconder. Achei um pedaço de pau disse meu amigo. Falávamos baixinho, que nunca nos encontrariam naquele lugar. Que sensação, meu cabelo do braço arrepiou um ventinho frio na nuca, uma sensação gélida, quase paralisante. A respiração ficou paralisada, senti meu coração batendo forte, mais um vento frio, minhas mãos tremiam. Chamei o nome de meu amigo, sussurrando, e nada escutei. A respiração foi aumentando, pulsação cada segundo mais rápida. Em súbito momento como se estivesse saindo de um afogamento, soltei o ar dos pulmões de uma vez, paralisado, respirando rapidamente, meus olhos fixo no escuro, o mundo acabou e de momento, a vida passa em nossas cabeças. O que será que esta acontecendo? Um barulho como passos em nossa direção, devagar, sorrateiramente, tenho certeza que não era animais, nem ao menos centopéia, alguém, ou alguma coisa, um urso? Um cão?

Corri o mais rápido que pude em direção a luz da saída, sem ao menos olhar para trás, passei por meus amigos e fui direto ao encontro de minha mãe.

Relatam que passei por meus amigos como um trovão, branco como o reflexo da luz, todos chamavam por meu nome, mas não ouvia, só tinha um pensamento de que iria morrer, aos braços de minha amada mãe me protegi. Sem ao menos saber do que se tratava, eu respirava fundo, e não sabia o que descrever. Olhos esbugalhados, pele branca, suor frio, arrepio, medo, sensação de morte, desespero, mais tarde ódio, tristeza, não podia fazer nada, mas me senti responsável, por meu amigo que nunca mais o vi na face da terra.
Hoje nessa lembrança tenho a impressão de ter tido o primeiro contato com uma raça imortal, uma raça sorrateira, algo que me tornei, não dessa forma, não gosto mais de cavernas, prefiro a cidade, prefiro me abastecer, e me alimentar em meio urbano, não gosto tanto assim de campo, talvez por esse episódio, vai saber, não é mesmo? Quem sabe! Quem saberá!