Em um quarto com uma porta, meio velha, quebrada nas suas laterais, ou será que ela está corroída pelo tempo, bem provável que seja isso mesmo. Uma janela velha, enferrujada, com um vidro quebrado, janela sem pintura, com uma única tranca. Uma cama de solteiro, um colchão velho, surrado, antigo sem capa ou mesmo um forro, travesseiro era um pano enrolado que somente apoiava a cabeça, onde fundamentava os pensamentos mais estranhos, sem nexo ou mesmo sentido. Sabe aqueles momentos que você tem certeza de que não está pensando em nada, mas sua cabeça pesa, em relâmpagos, raios devastadores de sua mente, não quer pensar, mas seu cérebro te obriga a esse momento desalinhado, momento que não tem fundamento algum, não quer pensar em nada, mas está. Um quarto sujo, empoeirado, teias de aranhas no teto, um ventilador com seus fios seguindo até o apagador, rodando lentamente como se estivesse movimentado pelo vento que passa pela fresta da janela. Que insegurança é essa, que medo é este, que enjoou e vertigens, fecho os olhos e meus pensamentos parecem sonhos, pensamentos que são sonhos. Mentiras que meu cérebro me conta, ou vontade que tenho reprimidas. Olho pra mim mesmo, parece que não estou respirando, não tenho porque respirar mesmo, pra que isso, pra que tantos pensamentos e sonhos?
Deitado sobre uma das mãos, olhando para o teto, a outra mão parece formigar, meus pés não querem ficar quietos, batem uns aos outros devagar, mas ansiosos, meus olhos fechados, sorrio de vez enquando, alguma coisa parece estar me atormentando, mas ainda não sei o que poderia ser. Solto minha cabeça no travesseiro improvisado e, passo as mãos no cabelo com os olhos ainda fechados, coloca as duas mãos sob a cabeça. E o que será que estou pensando ainda? Nem mesmo eu poderia saber.
Barulho de carros lá fora, não muitos, mas o suficiente pra eu dar conta, que ainda estou vivo, ou será que existe carros em outro lugar a não ser na Terra? Pra onde será que vou, já me fiz essa pergunta várias vezes e, nunca tive a resposta, ninguém me convence sobre, já reclamei o direito de saber tal coisa, o direito de ter o controle de si mesmo, de pode fazer aquilo que tenho vontade, de não ter que dar satisfação pra pessoa alguma, até mesmo pra você, fazer por fazer e nada mais. Não quero prejudicar ninguém, não quero fazer perguntas impossíveis, não quero colocar em cheque ninguém, só quero controlar a mim mesmo. Controles existem, e isso passa por minha cabeça a todo o momento, leis constitucionais, estaduais, municipais, leis do universo, leis da natureza, leis da vida, da sobrevivência, da divindade, de deuses, de povos, de pessoas, de chás, de tudo e, as minhas onde estão, onde poderia sentir que existe a minha lei, a minha história, dignidade, minhas resoluções e explicações para as coisas, onde eu poderia ser eu mesmo, sem ter que obedecer sentir, escutar, ouvir, ver e respirar as coisas alheias quero ter as minhas próprias regras, minha própria vida. Porque eu tenho que trabalhar, não poderia somente viver de sol, ou de terra. Onde está escrito que devemos ter casa, carro ou moto, construir família e ser feliz para todo sempre. Quero ficar sempre aborrecido, infeliz, bobo, retardado, sem responsabilidade, tirar meleca do nariz, coçar a bunda, tirar a cueca do rego, tomar uma pinga, comer gordura, hambúrguer no almoço e feijoada antes de dormir, rir no velório, entrar sem camisa no fórum, andar de cueca pela rua, chorar quando alguém me abraçar, abraçar todas as pessoas e tudo que ver pela frente. Quero só ser eu, ou será que serei mim? Mim ser alguém ou eu sou alguém, que importa, estou falando da minha pessoa não de você ou das suas regras, preconceitos ou armadilhas do sistema.
Querem me ditar regras de bom convívio, mas fazem tudo ao contrário do que eles mesmos me pregam. Dizem para seguir a Deus, mas ninguém nunca o viu. Falam pra seguir a constituição, mas os representantes não a seguem, existe uma pra cada um nesse mundo que vivemos. Uma constituição para os que a fazem, uma para quem a segue e outra para quem a faz obedecer. Olho para o teto do quarto, em súbito abrir dos olhos, e vejo uma aranha passeando em sua teia, o que será que passa em sua mente, questionamentos parecidos com os meus ou o mesmo que os outros animais. Não, ela tem seus objetivos que não se faz encontrar em sua totalidade com os mesmo que eu, pobres mortais. Aranha feliz, que segue sua própria regra, quando destrõem seus objetivos, não destrõem seus sonhos, ela os reconstrói de novo e segue em frente, não se preocupa com mais nada, a não ser seus objetivos, não vive de futuro ou de passado, somente de presente. Presente este que se faz muito forte em sua vida. Sem lembranças do passado ou perspectiva do futuro. Aranha forte e segura de si mesma.
Porque tenho que entregar meus objetivos ao desconhecido e pedir ajuda a quem não conheço. Posso ser uma aranha, acreditar em mim mesmo, seguir em frente, não ficar fazendo orações para todo o sempre, pedindo a alguém que não conheço. Porque tenho que ficar pedindo esmola o resto da vida para o meu criador, será que existe? Se fosse meu pai, eles dizem que não posso ficar o resto da vida pedindo para ele as coisas, que devo fazer minha própria família e assim alguém me pedir, mas quando falamos do desconhecido, tema o seu "deus", peça a ele misericórdia, atenção, sabedoria e, não posso obter por mim mesmo. Porque será, que isso acontece, vai saber.
A luz que passava pela janela, um pequeno filete de luz, não existe mais, nesse momento que abri os olhos mais uma vez, a noite chegou como tantas outras noites, como tantos outros dias, tudo se repete mais uma vez, e minha vida repete mais uma vez, e a aranha no mesmo lugar, aumentado a sua teia até que alguém ou alguma coisa a arrebente e venha forçá-la a reconstruir mais uma vez. Ninguém está me forçando a reconstruir ou construir algo, nesse quarto sou dono do meu próprio mundo.
J. P. Rosa "Sandro Rosa"