quinta-feira, 3 de junho de 2010

A Lua

A lua está tão clara com alvéolos ao seu redor. Uma luz tão clara, iluminando a mata ao redor. Um clarão lindo, devastador no ser. Olhando abaixo se percebe ao longe um pequeno sinal de cidade, com suas luzes bonitas, parece vaga-lumes, mas nada se compara ao reflexo do sol na lua, resplandecendo na face pálida. Sentado em uma pedra na montanha. Pedra grande, enorme ao meu descrever. Mata verde e, abaixo um abismo gigantesco. Respiro o ar que passa ao meu lado, talvez não devesse ter esse sentido, mas alguns podem ter ao menos essa regalia nessa pós vida.

Ao longe se percebe animais noturnos, sons noturnos e até mesmo o silêncio. Parece eterno o silêncio, mas logo em seguida um ventinho frio na face, eterniza momentos vividos ao longo da antiga vida, quando podia-se realmente sentir tais sensações. Dar valor infelizmente ao perdido, ao esquecido, ao passado, ao não vivido e quem sabe ao que não vivi “ainda” – parece impossível, mas quem não se arrepende ou não se arrependeu do que não viveu – sinto saudade de uma época infantilizada, sem responsabilidade, das brincadeiras de roda com cantigas, pega-pega, escorregador, subir em árvores, carrinhos de madeira, nadar, correr na lama, esconde-esconde.

Lembro-me de um episódio antigo, corríamos um amigo e eu para nos esconder, na brincadeira havia 11 crianças (sendo quatro meninos e sete meninos), a uma gruta, não escondíamos muito longe, porque nossos pais não deixavam brincar fora do perímetro da casa, e nossas mães vigiavam sempre, avistavam ou ouviam os gritos de nossas brincadeiras. Correndo em direção a gruta, havia uma pedra grande e uma entrada meio escondida com muito mato, mas dessa vez algo diferente estava há acontece. Sentia uma sensação estranha, mas nada que podia me impedir de entrar e não ser encontrado. Havia morcegos no local, muita centopéia e uma escuridão. Entrando na gruta, sorrateiramente, começamos a tatear o chão para achar um melhor local para nos esconder. Achei um pedaço de pau disse meu amigo. Falávamos baixinho, que nunca nos encontrariam naquele lugar. Que sensação, meu cabelo do braço arrepiou um ventinho frio na nuca, uma sensação gélida, quase paralisante. A respiração ficou paralisada, senti meu coração batendo forte, mais um vento frio, minhas mãos tremiam. Chamei o nome de meu amigo, sussurrando, e nada escutei. A respiração foi aumentando, pulsação cada segundo mais rápida. Em súbito momento como se estivesse saindo de um afogamento, soltei o ar dos pulmões de uma vez, paralisado, respirando rapidamente, meus olhos fixo no escuro, o mundo acabou e de momento, a vida passa em nossas cabeças. O que será que esta acontecendo? Um barulho como passos em nossa direção, devagar, sorrateiramente, tenho certeza que não era animais, nem ao menos centopéia, alguém, ou alguma coisa, um urso? Um cão?

Corri o mais rápido que pude em direção a luz da saída, sem ao menos olhar para trás, passei por meus amigos e fui direto ao encontro de minha mãe.

Relatam que passei por meus amigos como um trovão, branco como o reflexo da luz, todos chamavam por meu nome, mas não ouvia, só tinha um pensamento de que iria morrer, aos braços de minha amada mãe me protegi. Sem ao menos saber do que se tratava, eu respirava fundo, e não sabia o que descrever. Olhos esbugalhados, pele branca, suor frio, arrepio, medo, sensação de morte, desespero, mais tarde ódio, tristeza, não podia fazer nada, mas me senti responsável, por meu amigo que nunca mais o vi na face da terra.
Hoje nessa lembrança tenho a impressão de ter tido o primeiro contato com uma raça imortal, uma raça sorrateira, algo que me tornei, não dessa forma, não gosto mais de cavernas, prefiro a cidade, prefiro me abastecer, e me alimentar em meio urbano, não gosto tanto assim de campo, talvez por esse episódio, vai saber, não é mesmo? Quem sabe! Quem saberá!

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