quinta-feira, 26 de maio de 2011

Cidade

Sinto-me cansado de tanto caçar. Chega uma hora que temos que parar, pensar e colocar a cabeça no lugar, sentir o ar, ouvir os pássaros e viver. Mas quem disse que uma maldição como esta vai me deixar sair. Quem nasce caçador morre caçador. Tentar ter uma família somente se todas as criaturas horríveis que conheço morrerem, como isso não vai acontecer amaldiçoado está, amaldiçoado estarei.
Mais uma vez sentado em uma cama fétida de um moquifo chamado, pensão. Ele deveriam me pagar pensão por estar aqui, isso sim. Cama horrível; minha armas deve ser limpas, não posso errar nem um tiro de balas de prata. A água parece ter cheiro de mofo, o quarto todo tem cheiro de mofo, disfarça o meu cheiro. Minha facas devem estar afiada, quando passar no pescoço desses sangue sugas, não terá duas, uma vez será o suficiente para arrancar seu pescoço cadavérico. O cheiro de sangue não sai da minha narina, o gosto de água benta, alho e pólvora não sai da minha língua. Eca... odeio esse gosto. Meu nariz está escorrendo um pouco, muito frio se faz nas noites escuras. Um verdadeiro caçador não pode se dar ao luxo de ter alergias, nunca se sabe quando vai ser atacado. Não posso ter uma pausa nem para lubrificar os olhos. Olhos esses que se mantêm vermelhos o tempo todo. Não posso dar ao luxo de dormir oito horas por noite, duas ou três já são os suficientes, até mesmo cinco dias sem dormir, parece impossível, obrigatório nesse ramo, profissão ou será maldição certa?
Devo sair e buscar alimentos, sanduíches, comida fria, pastel com queijo gelado e muita bebida quente para espantar o frio. São 04h00min da manhã, devo encontrar alguma padaria abrindo ou algum boteco fétido com alcoólatras fedorentos.
O portão da pensão mais parece uma gradinha feita de latas de óleo, enferrujado, caindo aos pedaços, só abre de um lado, o outro agarrado no chão, nem se mexe. Merda... está sujo. O vento assopra, o capuz da minha blusa surrada serve pra esconder a face e as orelhas do frio.
Devo me apressar, tenho que investigar um desaparecimento ritualizado nessa cidade afastada do mundo. Mais uma vez parece história de chupa cabras ou alguma seita de jogadores de RPG, inocentes mortais, colocam culpa em absurdos da imaginação alheia, não sabem das aberrações que vivem do lado de todos. Seu vizinho pode ser um verdadeiro Vampiro, um Lobisomem ou até mesmo um Mago, sem falar das outras coisas que andam por ai que nem merecem menção ao pensamento.
A pensão fica no final de uma rua que contraditoriamente chama-se Salvação, estou precisando mesmo dessa mãozinha do além. Rua de pedra estreita, casas simples dos dois lados da rua, casebres bem antigos, dá pra ver algumas árvores enormes, parece centenárias nos terreiros das casas. Ainda de noite, madrugada fria que parece cortas a carne, que cheiro é esse... nariz apurado, parece sangue no ar, a lua parece se esconder. Com as mãos no bolso aliso minha querida Dayze com balas de prata, na mão esquerda um crucifixo de Dona Rosália, me deu tal objeto por ter salvo sua vida de um imortal imbecil, sigo em frente, medo não faz parte da vida de pessoas assim. A rua termina perpendicular com a rua Boa Esperança, plaquinhas de madeira sinaliza as ruas, que mais parecem becos da cidade histórica de Diamantina, matei muitas aberrações naquela cidade, bem em frente uma pracinha com uma árvore imensa, mas parece um edifício. Banquinhos na pracinha, algumas graminhas e o vento não para de assoprar... cantarolando a música da morte, minha? Não, não desses vermes que trafegam na contramão do tempo humano. Não morrerei ainda...
J. P. Rosa "Sandro Rosa"

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